quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O que aprendi durante minha imersão na Tese de Doutorado?

Estimadas leitoras e leitores, após um período de intenso estudo para a composição de minha Tese de Doutorado, retorno aos meus escritos neste blog para a alegria de uns, infelicidade para outros. Pelo menos, se consigo provocar algum sentimento, é o suficiente. Pelo menos, não se tem a indiferença endêmica que se dissemina no mundo. A imagem que você vêem à esquerda é de como está meu escritório após a Tese. Uma bagunça organiza (ou quase). Entretanto, o interessante é o caminho no qual se percorrer até chegar no produto final. A entrega de uma Tese é, literalmente, um alívio existencial muito acentuado. Da mesma forma, o desafio da Tese não está apenas nos fichamentos das obras, seu estudo, a elaboração dos argumentos, a composição da estrutura nunca se desviando da sua intertextualidade. Nada disso provoca tanta angústia quanto a profunda solidão intelectual que a Tese de Doutorado exige. Aos que não estão acostumados, é um desafio que exige paciência e prudência. Na Educação brasileira, somos "treinados" a ter uma "reação" segundo uma condicionante: a pergunta. Existe uma pergunta, e nós a respondemos. A partir desse "mecanismo", obtêm-se uma nota. Aqui, nessa solidão profunda, na caverna escura sem nenhuma (ou quase nenhuma) luminosidade platônica, somos deparados conosco mesmos. O que pensar? O que produzir? Isso é possível? Isso tem originalidade? Quais são os limites de minha proposição? O espaço do Ego, como espaço pensante, se dilui. Aqui não está o único espaço existencial, como diria Descartes, mas na intenção para qual o pensamento é dirigido - o mundo. Não é apenas o Ego-cogito cartesiano, mas o Ego-cogito-cogitatum de Husserl. O Ego desdobra-se perante o fenômeno chamado mundo e para ele se direciona. Percebe-se, nesse momento, a necessidade de  compreender não apenas o Ego como interior do pensamento, mas como se manifesta "para fora" (existência). É nesse diálogo que se inicia uma Tese. Entretanto, o rigor do pensamento com o mundo aumenta. Escrever uma Tese não é como escrever uma "petição", como muitos insinuam. Uma Tese, seguindo a linha de raciocínio de meu Orientador, Professor Dr. Marcos Leite Garcia, precisa atender a três requisitos: Erudição, Originalidade e Coerência. A Pesquisa precisa ter como alicerce uma fundamentação teórica "forte" na medida em que precisa ter um autor como base teórica e saber dialogar, de forma complementar, esse autor ou autora com outros para evidenciar a Erudição da Pesquisa. Não se trata de um "amontoado" de autores, os quais aparecem de forma desconexa. É necessário, ao menos, uma linha de pensamento como elemento comum no diálogo dessa pluralidade de autores e autoras. A Originalidade revela o elemento "novo" da Pesquisa. É a condição sine quo a non para a existência de uma Tese de Doutorado. Essa Originalidade pode ser condensada num único capítulo ou ser diluída em todos os capítulos que compõem a pesquisa. Por esse motivo, parece-me equivocada a expressão que os Operadores do Direito afirmam "vou defender uma Tese". Na verdade, defende-se um argumento, uma afirmação que contribuirá para a defesa de alguém. Trata-se apenas de uma parte do método Dialético. É possível que, às vezes, esse método seja completo: Tese (afirmação) + Antítese (negação) = Síntese (algo novo). Os argumentos nem sempre conseguem sair da Antítese. Quando não o fazem, a operação é somente silogística, ou seja, verificar se a premissa menor pode encontrar viabilidade de existência na premissa maior. O velho exemplo Aristótelico demonstra o que, hoje, é a "argumentação jurídica": João é homem; Todos os homens são mortais; Logo, João é mortal. Não existe o "novo" porque essa é a função da pesquisa evidenciada pelos 4 anos de Doutorado. Por fim, a Coerência mostra aquela "amarração" lógica na qual os capítulos precisam apresentar, bem como os argumentos apresentados em cada ponto debatido. Trata-se de uma "colcha de retalhos". Esse exercício demonstra como escrever de forma clara nem sempre é algo fácil. A clareza depende da profundidade das categorias enunciadas no trabalho sem perder o foco de seu conteúdo. Escrever de forma clara não significa abandono da erudição, mas seu aperfeiçoamento. A partir dessa combinação tem-se uma Tese. No entanto, o mérito não está em produzir uma Tese, apresentá-la, obter sua nota  e ter o esperado título, mas o exercício da humildade científica. Os estudos de uma Tese, a angústia da solidão intelectual, o remorso de ter que "por em suspensão"sua vida, abdicando de viagens, passeios, presença familiar em festas, entre outros, são desafios a serem superados. Essa "ausência", é equilibrada pela humildade. É necessário deixar-se sentir o que a experiencia educacional tem a lhe dizer (o que, infelizmente, não acontece com todos que obtém seus títulos). A grande quantidade de autores te mostra como o seu conhecimento é nada (ou menos que nada). Te mostra como sua vida se torna rica na medida em que dialoga com tudo e todos. Por esses motivos, a produção de uma Tese não é algo fácil, nem (muito) reconhecido em terrae brasilis, mas é infinitamente recompensador. Se todos pudessem sentir as sensações dessa experiência, talvez tivéssemos um mundo mais tolerante, plural e aberto para se aperfeiçoar o sentimento de nossa Humanidade. Essa é grande lição que perdura, ecoa por toda a vida: a finitude e efemeridade do existir e do conhecimento.     

2 comentários:

  1. Belíssimo relato e exemplo para mim, que estou na fase de qualificação do projeto de tese - já sinto os espasmos da solidão intelectual e como é recompensador o diálogo do conhecimento que ainda não se tem.

    Abs.

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    1. Cara Grazielly, o desafio é imenso, mas precisamos persistir. Amemo-nos de uma fervorosa paciência.

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