quinta-feira, 29 de julho de 2010

A ausência de paciência nos descaracteriza como seres humanos



Noites e noites, indago-me se a humanidade caminha para algo que transforme, a cada dia, nosso modo de ver o mundo e a vida. Questiono-me se, inclusive, o Estado e as pessoas estariam preparadas para dialogar sobre a necessidade de mudanças desse nosso estilo de viver. Rememoro a lição do filósofo Emmanuel Lévinas quando afirmava que a existência tem valor pelo que ela é, em outros termos, não é esse ou aquele cenário no qual é belo ou significativo, mas a própria existência. O existir tem a ardua tarefa de decompor os múltiplos significados apresentados pela existência. Por esse motivo, o citado filósofo sempre destacava o cansaço e a preguiça como modos de apresentar o peso e a sombra da existencia frente às pessoas. Acredito que essa explanação de Lévinas evidencia o que ocorre nos nossos dias quando a ausência dessa possibilidade de imersão entre a existência e o existir ocorre com tanta frequência. Vejo esse cenário, de modo direto, na Academia, especialmente o Direito. Deseja-se ter o conhecimento, ter o argumento, para, SEMPRE, cumprir com ALGUM OBJETIVO. Qual objetivo? A vida precisa sempre ter um objetivo? Se for positiva a resposta, então eternamente precisaríamos nominar as finalidades de cumprimento desse objetivo. Jamais poderíamos verificar uma sitação de simples contemplação porque essa É DESPROVIDA DE OBJETIVO. A velocidade tecnológica, ressalta-se, está impondo aos seres humanos uma condição de assimilação simplificada, ou seja, não há espaço para a existência, mas somente uma forma precária de existir. Vejo excelentes alunos e alunas, capazes de realizar a crítica desse mundo no qual nos é apresentado, MAS, em decorrência de sua SOBREVIVÊNCIA, abandonam os estudos para fazer outras COISAS (e esse é o termo) a fim de garantir a manutenção desse status - qual? DE COISA. É necessário avisar a essas pessoas que a vida cria oportunidades de reflexão e ação quando oferecemos TEMPO de percebermos o que somos e como podemos agir perante os Outros. Por esse motivo, a PACIÊNCIA denota essa linha conectiva entre existência e o existir. Paciência não se confunde com passividade. Ao contrário, denota ação ponderada de nossa internalização daquilo que se apresentada diante de cada pessoa. Reitera-se: SOB O NOME DE SOBREVIVÊNCIA, CADA UM DE NÓS ESTÁ ABDICANDO DE CONDIÇÕES NECESSÁRIAS AO NOSSO DESENVOLVIMENTO PORQUE SE DESEJA TER ALGO DE IMEDIATO. Esse ter eu deixo para que o meu leitor ou leitora o nomine devidamente, segundo sua reflexão. A técnica, ao invés de manter seu lugar de instrumento, está, cada vez mais, se transpondo ao conhecimento que se forma com o passar dos anos. Essa perda de contemplação evidencia seres humanos mais nervosos, angustiados, sem respostas prontas para problemas cada vez mais complexos, sem respostas prontas para indicarem algum significado de EXISTIR para si próprios. Aumentam-se os compromissos, a "bagagem" de informações, sem, e essa situação é paradoxal (para não afirmar irônica), as devidas conexões de importâncias entre os ramos do conhecimento nos quais essas informações aludem. O pensamento linear que todos estão acostumados (e acomodados) a realilzarem se torna insuficiente diante dessa situação. Fala-se em qualidade de vida e eu me pergunto: onde? Fala-se em ERA DO CONHECIMENTO e eu me pergunto: onde? Fala-se que as pessoas estão lendo mais, no caso dos brasileiros, e eu me pergunto: onde está a crítica sobre os horrores que assolam o cotidiano? Não vou generalizar: existem ótimos pesquisadores, com produções excelentes acerca dessas minhas divagações, mas PROPORCIONALMENTE esses não conseguem traduzir TODO cenário da existência. E isso é natural na condição de Ser humano. Entretanto, a responsabilidade de todos para com todos não nos exime de mergulharmos no debate, com seriedade, e trazer LUZES para um pensamento que mais se caracteriza como monólogo em detrimento ao diálogo. REPITO: P-A-C-I-Ê-N-C-I-A é a condição no qual nos possibilita enxergar outras cores de um mundo há muito monocromático (preto, branco ou, para a maioria das meninas entre 5 a 13 anos, rosa - vocês escolhem).

10 comentários:

  1. Mas que texto lindo! Peguei pra mim; entre aspas... Grande abraço.

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  2. Querida Ivana

    O texto é para ser utilizado como quiseres... hehehe

    Obrigado pelo carinho.

    Abraços

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  3. Parabéns pelo blog.

    Convido para que visite o meu e leia texto onde faço paralelo entre o mito de caverna de Platão e a educação no Brasil. Acessar em:

    www.valdecyalves.blogspot.com

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  4. Oi, Sergio! Li a "errata" no mural do blog. Sem problema. Freud diria que foi um "ato falho". Fica a pergunta: quem é Camila?? Rsrsrs

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  5. Li o seu texto no blog "Xad Camomila"... Muito bom!! Adorei!

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  6. Cara Shuzy

    Considere esse um espaço seu. Tragas suas contribuições para que cada vez mais possamos aprender o significado de Ser humano.

    Abraços e muito obrigado pelas gentis palavras.

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  7. Professor Sérgio,

    Que bela reflexão.
    Um olhar mais aguçado para um mundo tão complexo, e muitas vezes sem nexo.
    Seus estudos diários,divulgados no Blog trasnforma um mundo sem extensão de ideias.
    É um verdadeiro despertar.
    Um despertar de matizes multicoloridas, para um mundo mais humano e solidário.
    Leio muito,e o que admiro na forma de muitas leituras é o que acabo de ler, um texto com conteúdo e uma reflexão primordial de ajuste humano.
    Parabéns!
    O mundo precisa e sempre precisará de pessoas que deixem rastros identificadores.

    Beijos de Luz!

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  8. Prezada Sandra

    Novamente, obrigado pelas gentis palavras. O conhecimento precisa ser compartilhado para que possamos construir meios de nos tornarmos sujeitos numa sociedade que nos identifica e considera como objetos.

    Forte abraço

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  9. Caro Sergio,

    ótima reflexão. Muito pertinente!
    Sinceros parabéns!

    Apenas uma observação: a impaciência também é humana...

    abraços e tudo de bom,

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  10. Caro amigo Ozaí

    Tens razão... e nos meus pensamento sempre rememoro o papel dos opostos como a principal característica humana. Nesse momento, meu indicativo é que a persistência da impaciência não denota às pessoas outras possibilidades de vida. Concordo em todos os termos contigo de que sem a impaciência seria improvável (e impossível) verificar o caráter multifacetado da vida.

    Grande abraço

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