sábado, 19 de junho de 2010

Ainda não aprendemos a lição e a obsessão pela imortalidade continua...



A perda recente do escritor Saramago foi um fato significativo para todos. Ficamos mais pobres como seres humanos. O nosso horizonte pareceu mais distante e vazio. A companhia do ego não parece tão agradável porque o monólogo não nos permite ir muito além dos grilhões de nossa própria perspectivas e anseios. Tornamo-nos muito mais limitados. Esse cenário de perda e, consequentemente, de um olhar para dentro de nossas almas revelou como ainda não sabemos lidar com a (frágil) e incompreendida existência humana. Acredito que já tenha mencionado em momentos anteriores sobre a primeira lição da Filosofia que é o desapego. Essa postura não se revela como inidiferença alheia, mas compreender o caminho fluído da vida. Nada é imortal, nada é perene. Num curto espaço de tempo, aprecia-se seus múltiplos significados OU NÃO. O apego, principalmente à Vida, gera ressentimento, como afirmava o filósofo alemão Max Scheler. Essa forma de pensar e agir causa demasiado sofrimento e, no seu grau mais elevado, não permite ao Ser humano transitar nessa maré que vai e volta, enquantos nos encontramos nesse plano existencial. O aprendizado sobre esse significado do desapego talvez seja a mais árdua das lições a serem internalizadas. Somos todos apegados a tudo que criamos, dialogamos, aprendemos, vivemos, enfim, ainda não sabemos o que existe por debaixo do véu de Ísis. Rejeitamos nossa condição de mortalidade. Somos criaturas imortais, por mais paradoxal que essa expressão possa parecer. Não aceitamos (e nem o queremos) descer do Monte Olimpo. Não ousamos, como Sísifo e Orfeu o fizeram; Não criamos, como Beethoven, Galileu ou Michelangelo; Não ouvimos a melodia da Vida como Saramago, Shakespeare ou Oscar Wilde. Estamos condenados à nossa própria mediocridade. Esse é o nosso trono olimpiano e verificamos como essa manifestação se extende às nossas instituições. Vejam, por exemplo, a condição de eternidade dada ao Direito Positivo e a dificuldade de compreender os novos tempos, seus anseios, angústias, desesperos, alegrias e choros. O Direito Positivo deixou de ser Humano, não quer ser mortal porque essa postura implica em ser imperfeito, estranho, incerto, enfim, tudo aquilo no qual humaniza. A nossa imortalildade custou nossa humanidade e, como resultado, o mundo não é mais o caleidoscópio da des-coberta e incorporou o mito da eternidade. O infinito, caracterizado pela profundidade das experiências dialogais humanas, rompe-se drasticamente sempre com a perda de alguém e o ressentimento retorna triunfante. Quantos séculos mais ficaremos surdos, cegos e mudos? Aparentemente, a experiência do existir se situa, temporalmente, apenas no momento de nossa Vida. Viver ao extremo ou não viver seriam oportunidades concedidas tão-somente ao que representa a nossa Vida? Eu, confesso, tenho minhas dúvidas (ainda bem). Esse momento de nossa vida é apenas UM MOMENTO. E os outros para além DESSA existência? Bom, vamos deixar esse ponto de interrogação quando chegar a nossa vez de caminhar pelo desconhecido.

6 comentários:

  1. Lindo texto. Estamos todos na caverna. Saramago é aquele que vai e nos traz luz, que nos incandeia! Mas é a única forma de liberdade. Perdê-lo é diminuir a esperança da materialização da verdadeira liberdade. Quanto ao direito desumanizado, isso não é mais triste. Acredito que é mais triste o fato dos juízes mais e mais, apesar de humanos, desumanizados. Direito como fim em si mesmo em mãos de quem ignora a Justiça!

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  2. Caro Valdecy

    É no diálogo com o tempo que nos humanizamos. A imortalidade retira o olhar do diferente e nos situa sob o plano etéreo. O Direito é feito por humanos e para humanos.

    Abraços

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  3. Sergio!!! Desculpe-me, mas ouso discordar um pouquinho... só um pouquinho! hehe
    "Ficamos mais pobres como seres humanos." (????)
    Fui apresentada à obra do Saramago quando eu, estudante de Letras, tinha apenas 19 anos. Desnecessário dizer que fiquei encantada... Um mundo novo se revelou pra mim naquele instante e assim começou meu processo de crescimento ... Ele morreu! Sim, todos nós vamos morrer! Não me sinto mais pobre agora, a riqueza que adquiri com sua obra, nunca a perderei! Lindo seu texto. Parabéns pelo blog!

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  4. A perda que eu me refiro, Cara Violene, é que uma pessoa na qual tratou da literatura, do saber-pensar se foi. Com tantos poucos pensadores nos quais temos, pode-se dizer que a Humanidade, com seus interesses, perde um pouco de seus matizes. Diria o Professor Dr. Cirne-Lima do programa de Filosofia da UNISINOS que o Século XX foi pobre no ato do pensar e agora, a muito custo, tentamos resgatar nossa humanidade.
    Ainda bem que temos (algumas) boas perspectivas.
    Abraços e obrigado Violene

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  5. Caro Prof. Sérgio Aquino, seu texto me lembrou uma passagem de Deleuze que, citada de memória, e aproximativamente, diz:"A obra de arte é o que pode resistir à morte". Creio que se aplique a Saramago. Por um lado, é incontestavelmente triste o fato de que não mais o tenhamos a escrever; por outro, devemos ser gratos pelo tempo que ele pôde dedicar à literatura, pois escreveu uma obra capaz de sobreviver até mesmo a seu autor (e, com mais certeza, a nós, leitores e admiradores). Um grande abraço, do amigo - MDCC.

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  6. Caro amigo Murilo

    Tudo o que se manifesta na existência e traz a nós pequenos esclarecimentos sobre o que é a Vida e, ao mesmo tempo, Ser humano denota a nossa insistência em, como diria Maffesoli, viver o instante eterno. E é nesse momento no qual cada um deixa sua impressão sobre esses espaços vitais. Aqueles que souberam compreender seus diálogos permanecem como nossos mestres e temos muito a aprender com eles. A vida é, portanto, uma bela obra de arte quando nela há os elementos que a imortalizam como tal.

    Abraços

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