sexta-feira, 19 de março de 2010

A (in)compreensão sobre a ontologia do momento presente

O Professor Dr. Lênio Streck, em sua obra Hermenêutica Jurídica e(m) Crise, lembra que o ato de compreender não pode derivar tão-somente da Ciência (Epistemologia), mas, principalmente, da experiência que nasce com os diálogos promovidos entre as condutas humanas. Trata-se de se verificar uma possível ontologia da compreensão. Segundo esse pensamento, proponho também a ontologia do momento presente a fim de se verificar qual o seu significado para se des-cobrir os fenomenos manifestos e latentes nos quais se incorporam no desenvolvimento desse theatrum mundi que é o espaço Cotidiano. A pintura de Escher exposta acima denota essa nossa procura de significados constantes para a existência humana a fim de diminuir as angústias que nos tormentam tantas vezes. Será? A vida não tem resposta definitiva. A vida não é um fenômeno estático. Sempre nos colocamos em movimento a fim de compreender nossos próprios limites. Desejamos, ilusoriamente, que a vida nos traga respostas prontas e definidas. A incerteza continua a ser caracterizada como o terrível monstro no qual precisamos, a todo custo, eliminar, tal qual a Europa fez no momento do Holocausto. Entretanto, percebemos que quanto maior o mergulho maior a profundidade de compreensão sobre nós e o mundo que aparade diante de todos. O medo dessa ação reside em não se retornar dessa profundidade. De se permanecer imerso na própria loucura, quando Grondin descrevia as lições de Fílon de Alexandria para se mostrar quem era a figura do Hermeneuta na Antiguidade Clássica. Não consigo imaginar algo que esteja fora do momento presente. Essa pode ser minha limitação. Mas, é no presente que se inicia todo fundamento utópico de ALGO QUE PODE VIR A SER (devir desejável ou futuro prometeíco). Essa condição de algo que PODE VIR A SER denota improbabilidade. Fora do momento presente, NO QUAL, TEMPORALMENTE, AINDA SE DESENVOLVE, não tem como afirmar que se vive algo autenticamente. As pessoas que vivem no Futuro, quero crer, devem ser mais avançadas que nós, pobre mortais, pois conseguiram atingir um outro patamar de vida - individual e/ou coletivo - e um outro patamar de compreensão. Tornam-se os novos deuses olimpianos ou o loucos que não souberam administrar seu próprio jogo de linguagem. O Cotidiano é um Ser que se manifesta diante de nós. Não se trata de mero espaço, mas é uma ENTIDADE na qual coloca em dúvida todas as nossas certezas habituais. O Cotidiano dialoga perenemente, e a seu modo, com todos e nos mostra qual o significado da Vida. Não pretendo expor aqui o caráter epistemológico do Cotidiano. Seria um ato imprudente tentar colocar num conceito o signifcado fragmentado e múltiplo dessa entidade. O mesmo pode-se afirmar sobre o ato de se prender num conceito (cristalizado e atemporal) o significado de Pessoa. Quando menciono a proposição de uma ONTOLOGIA DO MOMENTO PRESENTE pretendo identificar os elementos que o caracterizam e o diferenciam de todas as manifestações humanas (e outras, talvez, na qual minha limitada percepção ainda não pode alcançar). O Ser humano se afirma diante dos outros pelas duas diferenças expostas de modo dialógico. Entretanto, a condição de sujeito-sujeito não é exclusiva dos Seres humanos. Na sua ausência, o próprio tempo e espaço possibilitam as indagações em progressão geométrica e as respostas em progressão aritmética. Somente o momento presente, POR ENQUANTO, é a única ENTIDADE capaz de nos mostrar, autenticamente, a vivacidade das idéias e dos sentimentos. Por esse motivo, o diálogo entre nós e o Cotidiano demosntra: A VIDA É PRECÁRIA, EM TODOS OS SEUS SIGNIFICADOS. Por esse motivo, busca-se, incessantemente, nossa auto-compreensão pela experiência da Vida. A Razão, com todos os seus qualitativos (Lógica, Sensível, Abstrata, Complexa, entre outros), quando amadurecida, torna-se INTELIGÊNCIA e, posteriormente, pontifica-se como SABEDORIA. Acredito que somos muito carentes de SABEDORIA porque deixamos de nos comunicar com esse TODO que é a experiência humana. Diversas manifestações dita humanas, como é o caso do Direito, por exemplo, não conseguem expressar seus propósitos porque falta-nos COMPREENSÃO. Rompeu-se os laços com essa (outra) entidade - Todo - porque temos pressa, queremos tudo de modo imediato para apalcar, também, nossas necessidades materiais. Tudo o que está fora da dimensão imediata não pode ser considerada como necessária à manutenção da Vida entre as pessoas. Creio que essa celeridade em demasia tem se tornado nosso algos para compreendermos nossas ações e pensamentos nesse inicío de século. Acredito que essa ausência de compreensão ocorre pelo motivo das pessoas, TODOS NÓS, se tornarem surdas diante das lições, palavras e melodias que o Cotidiano nos apresenta, de modo muito singelo e silencioso. Falta-nos, como diria Maffesoli, a sensibilidade para escutar as súplicas do Cotidiano como se pudéssemos ouvir a grama crescer. Por incompreendermos as palavras sutis do Cotidiano, palavras proferidas por um velho amigo para outro, deixamos de saber quem realmente somos. O diálogo, aos poucos, some e a lembrança dessa conversa informal, aos poucos, se torna, como diria David Hume, esquecida, distante, perdendo-se suas cores, sons, os laços de amizade, enfim, tudo o que detém um significado de aproximação. Mais um motivo para se continuar a temer a precariedade humana e continuarmos a viver no alto da torre, imaginando, no alto de sua imponência, quem é esse velho amigo esquecido chamado COTIDIANO.

6 comentários:

  1. Esse é o escrito do meu presente que se segue há muito tempo desde que mergulhei para encontrar a melhor conveniência para meus interesses. Na profundidade, descobri minha identificação com o transitar entre as mais diversas realidades, tentando compreender os mais diversos domínios da realidade, como diz Maturana, mas sem me envolver diretamente em nenhum deles.
    Deve me faltar sabedoria para aproveitar melhor esse presente.

    Adorei o texto ^^

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  2. EStimada Grazielly

    Essa é a vida pela qual somos despojados de nossas soberbas e mergulhados na dimensão de se viver um eu plural.

    Abração

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  3. Não dá para ouvir a grama crescer.
    Porém, saber que a grama cresce.
    Entre uma e outra graminha pode vir a surgir uma árvore frondosa, desde que ninguém ali passe a lâmina...
    Prefiro pensar assim sobre a grama.

    Nem tudo guardamos na lembrança, no entanto temos “lembranças”... de sons, sensações, imagens belas e tristes, palavras que nos ergueram em determinado momento e palavras que nos afundaram, assim é a vida.
    Só que esse “afundar” professor, talvez por ironia, é que nos obriga a “mergulhar” e não devemos ter receios de não conseguir mais voltar, pois penso que é da natureza humana saber sobreviver ás intempéries da vida, tanto é que muitos animais foram extintos, e nós humanos devido aos “mergulhos” superamos os desafios desde a era mais remota e os que utilizaram a experiência e/ou sabedoria de outros souberam melhor aproveitar sua existência neste mundo.

    Temos que ter a sensibilidade de filtrar o que nos é útil, ou seja, observar, meditar o nosso cotidiano, o cotidiano ao redor para tirar dele a experiência, a estratégia, analisar com inteligência e não ter a pressa destes tempos modernos, que nos pressiona para sermos céleres em todas as horas.
    O que intriga é querer conhecer o ser humano na sua essência,
    e não conseguirmos, pois temos que admitir que cada ser humano é único, com sua individualidade.
    Lendo o livro Filosofando – Introdução á Filosofia, página 33:
    “ O nome, ou a palavra, retém na nossa memória, enquanto idéia, aquilo que já não está ao alcance dos nossos sentidos: o cheiro do mar, o perfume do jasmim numa noite de verão, o toque da mão da pessoa amada, o som da voz do pai, o rosto de um amigo querido. O simples pronunciar de uma palavra representa, isto é, torna presente à nossa consciência o objeto a que ela se refere. Não precisamos mais da existência física das coisas: criamos, por meio da linguagem, um mundo estável de idéias que nos permite lembrar o que já foi e projetar o que será. Assim instaurada a temporalidade no existir humano. Pela linguagem, o ser humano deixa de reagir somente ao presente, ao imediato; passa a poder pensar o passado e o futuro e, com isso, a construir o seu projeto de vida.”

    Se eu tinha ainda algo a escrever hoje, já não tenho mais depois das palavras que tirei do livro, livro que o senhor em sua sabedoria, o recomendou. Lhe agradeço imensamente o aprendizado. Abraço,
    Rosana do C. Tomelin, 1ª Fase Direito matutino – FASC.

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  4. Caríssima

    São as palavras que tem o dom de nos proporcionar certo conhecimento do mundo, mas elas são precárias. É a vida do momento presente na qual torna possível sentir, um pouco, o que é a idéia do viver e como essa possibilidade repercute no Direito. Vamos trilhar o caminho impossível.

    Abraços e vonte sempre que quiser.

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  5. Caro Prof. Sérgio Aquino,

    Sua reflexão tem um perfume nietzscheano: "agir contra o tempo, e sobre o tempo e, eu espero, em favor de um tempo que virá." O que Maffesoli, por exemplo, diz em um de seus últimos artigos (Dionyso Redivivus) é que o atual não tem qualquer sentido senão pelo quotidiano (e completa), "...o quotidiano, isto é, o impermanente". As incertezas são a condição de toda experiência, e a vida, como o senhor diz, não é estática - mas uma estética... Belo texto! Grande abraço,

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  6. Caríssimo amigo

    Tenho visto seus belos textos, mas o tempo não me tem permitido desfrutá-los, assim como sinto a ausência de nossos ótimos diálogos. É sempre uma honra receber um comentário seu porque o único sentido da existência é compreendermos nossa bela condição humana num tempo finito e incerto. Agradeço as belas palavras.
    Abraços e faça desse espaço sua morada.

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