segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Direitos Humanos e Lévinas: ainda se desconhece a experiência do infinito que se revela pelo rosto alheio



Os acontecimentos que ocorreram no Haiti demonstram uma crise que, como já afirmei mais de uma vez, vem se arrastando desde o Século XVIII , qual seja, a nossa incapacidade de reconhecer o Outro como semelhante. Essa postura bárbara está beirando uma situação intolerável. Os discursos, como se pode perceber pela mídia mundial, é sempre igual: a SOLIDARIEDADE ou os bottons que indicam uma pretensa revolta contra a situação noticiada é o exemplo clássico sobre a nossa impossibilidade de abandonar, ainda que momentaneamente, o eixo gravitacional imposto pela elipse do ego. Os Direitos Humanos rememoram as civilizações constatemente que sua existência se deve à natureza destrutiva do Homem no qual, quando se torna cego diante das ilusões de poder que cria (especialmente aquelas de cunho financeiro), os pilares da paz, da justiça, da harmonia, igualdade, fraternidade, amor ao próximo, desmoronam como os castelos de areia. Douzinas - em sua obra O Fim dos Direitos Humanos - bem afirma que quando os Direitos Huamanos, seja por ação ou omissão, compactuam com o discurso monetário vigente, e muitas vezes quase se revive um Neocolonialismo, não há força no planeta que consiga, razoavelmente, mostrar a cada um de nós que a Vida se desvela e se revela pela existência singular da Outra pessoa. Lévinas é enfático ao tratar sobre os rostos alheios que tem a capacidade de nos sensibilizar para além dos discursos que se afastam cada vez mais sobre a essência na qual reside no agir e pensar humano: a procura do bem. Existe em cada pessoa, em cada Vida, uma abertura ao infinito. O Outro é absolutamente Outro e jamais uma cópia de nossa imagem egocêntrica. Por que tudo é dificil, como a maioria de nós já reclamou em algum momentos de má fase existencial? Porque o Outro retira o grau de solidez das minhas certezas habituais. Esse estranho, como diria Bittar, não pode pertencer ao universo do preciso, do absoluto, da perfeição humana que se equivale, muitas vezes, ao grau de uma divindade metafísica (no seu sentido mais amplo possível). Esquece-se que por meio da sensibilidade, de se sentir algo junto a alguém, é possível compreender os efeitos positivos e negativos da Vida. Contudo, não se pode vivenciar essa possibilidade. Todos estão preocupados com sua sobrevivência no cotidiano. Essas pessoas não estão erradas, seguem apenas o que o discurso econômico manda e, por esse motivo, esquece-se quem é o semelhante. O Outro é uma ilha distante, inalcançável, e para me render ao discurso comum, utópico. Abandonou-se o sentido do Cuidado. Abandonou-se a capacidade de se chocar contra as atrocidades no mundo. Abandonou-se a solicitude na qual cria o caminho do Ser-Aí-Com (Heidegger) e elabora o sentido da existência. Os Direitos Humanos precisam resgatar a essência da Vida. Esses direitos não conseguem atingir seus objetivos porque seus ideais não fazem sentido às pessoas e muito menos às instituições que a representam. O rosto alheio não pode ser reconhecido porque não se sabe quem é o estranho. Nessa qualidade de ser estrangeiro, existe apenas uma ação a realizar, conforme o discurso mundial vigente: eliminar. A aventura do infinito, do auto-aperfeiçoamento, da auto-compreensão que se efetiva por meio do caminho que se trilha nesse desconhecido denominado Outrem perde-se diante do descompromisso de todos por todos. Indignar-se com condições sub-humanas, tais como ocorrem no Haiti, é uma postura paliativa, mas sem muita eficácia. Muita vezes, o discurso não é compreendido nas ações cotidiana. O que fazer nesse momento de transição em que se percebe, claramente, os efeitos da atemporalidade na dimensão humana? Aquilo que podemos dentro de nossa capacidade: reconhecer o desconhecido, sensibilizarmo-nos diante do que seu rosto nos apresenta e agir conforme o que se caracteriza como razoável. É suficiente? Creio que não. Entretanto, somos humanos, somos imperfeitos, mas podemos sempre mais se acreditarmos naquilo que a Vida, em seu sentido mais amplo, significa: viver e aprender com tudo e todos. Esse é o movimento no qual o segredo do cotidiano deixa de ser terrível e passa a ser um convite para a plenitude de uma vida efemera. Gostaria de saber quem alcunhou os feitos da humanidade de CIVILIZADOS.

2 comentários:

  1. A experiência do Outro, conforme Lévinas, é desconhecida do ser humano contemporâneo, isto porque, na minha modesta opinião, o Superego desse sujeito se encontra unicamente voltado para o desejo de satisfazer toda e qualquer necessidade fútil que a sociedade de consumo oferece, no que me apoio em Zizek e Bauman. Porém, confio (por mais incrível que pareça) no potencial do ser humano, acreditando que os direitos humanos, em tempos de globalização, conforme diz meu grande amigo e mestre Doglas Cesar Lucas, pode servir como mínimo ético para o diálogo intercultural em tempos de mundialização. Apesar disso, ainda sonho, kantiano, com a República Federativa Mundial do Höffe, o que deve se dever ao fato de estar escrevendo uma dissertação de mestrado falando das possibilidades da cidadania pós-nacional diante da crise do Estado-nação e da mundialização da política. No mais, compactuo inteiramente com suas palavras, pois nós, juristas que realmente pensam e não apenas tendem ao tecnicismo burro dos tribunais, ainda somos raros em terras brasileiras. Um grande e fraterno abraço, Eduardo Matzembacher Frizo (do blog http://insufilme.blogspot.com/).

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  2. Caro Eduardo

    Você está certo quando os Direitos humanos é o mínimo ético para se começar o diálogo intercultral a fim de se manifestar o resgate de reconhecimento da existência do Outro que é absolutamente Outro (Lévinas). Compactuo com o projeto kantiano exposto na obra à Paz Pérpetua e antes revelado por Abbé Saint-Piérre na obra projeto para tornar a paz pérpetua na Europa. A minha preocupação, bem como sua, muito bem sinalizada, é exatamente como construir essa nova configuração mundial, pautada pelo acolhimento e cuidado à experiência humana (sem os exageros antropocêntricos de costume) acolhimento e cuidado ao próximo. Essa, na minha opinião, será a transgifuração em escala planetária para sair um pouco da visão bur(r)ocrática e economica imposta pelo capitalismo De caráter Neoliberal. Esses são os desafios culturais do Século XXI.

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