sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Falta ao Direito uma imaginação semelhante à do Barão de Munchausen


O problema do Direito, enquanto manifestação cultural e que incide na criação normativa, é a sua incapacidade de perceber no cotidiano as fragilidades e os elos de ligação que possibilitam a vida social. Já mencionei essa hipótese diversas vezes, mas parece que não há ressonância no mundo jurídico. Parece-me que a clausura, o monastério dos saberes, como diria o Professor Dr. Warat, ainda persiste depois de se demonstrar durante o século XX os efeitos nefastos de uma produção científica que abra suas portas ao mundo da vida e compreenda a Pessoa como um Ser singular na qual o Mito, a Razão Lógica, a Paciência, o Ódio, a Beleza, a Raiva, entre outros, são características autênticas daquilo que, epistemologicamente falando, pode se aproximar de um CONCEITO - muito pobre - sobre o que é Ser humano. Por esse motivo, resgatei o personagem vivido por John Neville - O Barão de Munchausen. Esse personagem literário consegue mostrar como a vida se torna pobre dentro das implicações promovidas pela Razão Lógica. O seu alcance é limitado e, ainda, ao contrário daquilo que preconizava Platão, pode imprisionar a verdade e controlar aqueles que não possuem conhecimento (fático e teórico) suficiente para distinguir o falso do verdadeiro. Munchausen revela, ao longo do filme, como a acomodação pode ser negsativa para que a vida se desenvolva em qualquer aspecto. Adverte, também, como os Mitos podem servir de exemplaridade na busca por critérios adequados à vida. Ao se decodificar as aventuras vividas pelo Barão no cenário (jurídico) brasileiro, percebe-se, mais e mais, a sombra do espírito da morte que no filme é retratada inúmeras vezes. A morte social, a apatia, a acomodação, enfim, todos esses elementos citados não conseguem estabelecer um theatrum mundi, como afirma Maffesoli, para que a vida seja o mais belo das poesias. Não se trata de um discurso ideal, mas que se manifeste na vida de todos. Ao final desse ano, é possível, ainda que opacamente, observar alguns avanços significativos na Ciência, na Educação, na Socialidade. Aos poucos, a imaginação nos rememora quem somos, o que somos e para onde podemos caminhar para SE COMPREENDER melhor e, após, a Outra pessoa. A clausura da vida suga a energia vital que se tem para a construção das utopias e devires nas quais orientam todo pensar e agir do momento presente. A vida tem que ser uma obra de arte, pois se for considerada como QUALQUER OUTRA COISA - e essa é a palavra adequada - não precisaria estar protegida pelas regras positivadas. As mudanças servem para desestabilizar a vida - negativa ou positivamente. Nem sempre seus propósitos são compreendidos porque perdeu-se parte da imaginação em se PODER VISLUMBRAR qual a esperança que o século XXI pode trazer. Ao invés das pessoas se esforçarem para criar esse espaço - POSSÍVEL - de uma vida que esteja cheia de segredos nos quais nos convidam a sair de nossos mundos perfeitos e confortáveis, essas estão preocupadas, novamente, com procedimentos (veja-se as tentativas de mudanças no Código de Processo Penal e Civil em trâmite no Congresso Nacional) ou, pior, na quantidade dos lucros advindos de uma Economia cuja preocupação está milhas de distância de qualquer argumento sobre desenvolvimento sustentável (veja-se o exemplo da COP15). Meus caros leitores e leitoras, o final de ano chega aos lares de cada um e nos faz recordar que a esperança de um amanhã melhor parte da compreenção de cada um sobre o que significa viver. Acredito que o Barão traz uma bela mensagem de como isso se constrói com a passagem dos anos, décadas e séculos: não percam o poder de imaginar a fim de que as utopias carregadas de esperança (Osvaldo Melo) se tornem reais em qualquer momento da História. Afinal, e como a época é propícia, jogue a primeira pedra quem deixou, verdadeiramente, de acreditar em Papai Noel. Os mitos vivem e, com a adequada decodificação, é possível ilustrar como a vida pode ser bela, sempre. Sejamos como o Barão de Munchausen para quem a vida é uma eterna aventura.

2 comentários:

  1. Explêndidos comentários, o blog é muito qualificado, estimula a leitura até mesmo daquelas pessoas (como eu) que são leigas no estudo da filosofia. Parabéns Professor e grata pela contribuição intelectual.
    Geana Lopes de Souza - Caxias do Sul

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  2. Cara Geana

    Temos que ir, aos poucos, pensar esse mundo que nos traz tantas ricas contribuições. Devemos, também, com prudência, separar aquilo que não tem como consolidar um significado autêntico para nossas vidas. O desafio está, basta termos a coragem de dar o primeiro passo.
    Abração e grato pela visita e contribuição

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