segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

É possível perceber um saldo humanitário no ano de 2009?


Eu afirmo (ou tento) para meus amigos e amigas que esse espaço no qual tenho escrito algumas angústias existenciais (porque segundo o Professor Dr. Lênio Streck angústia é sinal de vida) é denominado demências noturnas. Exponho essa condição porque tal postura pode nos esclarecer alguns aspectos da Condição Humana na qual se encontra poucas ou nenhuma resposta. Faço esses comentário porque o ano de 2009 representa, talvez, o início de algo que venha a durar ou se mostrar como meio de vida para as próximas décadas. Sem um espaço que se abre ao diálogo construtivo entre a certeza e incerteza toerna-se improvável a elaboraçã de um projeto coletivo que saiba adequar-se às mudanças que ocorrem nos diversos campos do conhecimento e ações humanas. O leitor ou leitora mais atento sabe que, paulatinamente, mostrei estudos sobre o(s) significado(s) da Pós-modernidade, suas virtudes e vícios. Entretanto, a persistência da indiferença em relação ao Outro ainda é manifesta. Tenta-se, como mostrava Thomas Kuhn, refazer a Revolução Copernicana, contudo, a cegueira diante do EU nos orienta para o abismo da segregação entre as pessoas. Falta-nos a cumplicidade da convivência para se saber o que o Outro significa para o meu desenvolvimento. O COP 15 nos mostrou uma possível tentativa de reconciliação (ou até redenção) da intenção humana em querer mudar, avançar, mas o casulo da auto-suficiência que assolou a Europa no início do século XX ainda é o motivo forte para se assegurar aos Cidadãos nacionais a tão desejada segurança. Essa ingenuidade pode, nos próximos anos, custar a todos um ambiente mais adequado para nossas vidas, no seu sentido mais amplo possível. O ano nde 2009 não apresentou, assim como seus antecessores, nenhuma novidade que realmente pudesse contribuir para o aperfeiçoamento humano. Teve-se, sim, algumas melhorias que tornaram a vida razoavelmente sustentável. Será? Em caso afirmativo, para quem? A sobrevivência ainda significa luta, trabalho forçoso (tripallium) que o Ser humano sequer tem a chance de saber quem é. Se há dificuldade - espacial, temporal ou existencial - na (des)construção de uma identidade do Século XXI é porque ainda não sabemos o que significa Ser humano. A primeira década do milênio desponta no horizonte. Surgem os primeiros raios de sol diante das trevas noturnas. Entretanto, as luzes ainda são poucas e opacas perante a satisfação do desejo. Caso não se possa decodificar os mistérios da vida cotidiana, do Outro e de nós mesmos, os castelos de areia se erguerão e, com o tempo, desaparecerão. Seremos os autênticos herdeiros do vento. Compreender a vida e cada um de nós como um espaço infinito (Lévinas) exige um desprendimento, um desapego, singular das verdades absolutas que, narcisivamente, construímos ao longo dos séculos. Lembremo-nos: Ser humano é errar e duvidar. A dúvida é postura de humildade frente aos fenômenos nos quais não se tem uma resposta precisa na qual o Ego reclama diariamente. Se 2010 for o momento de sairmos dessa cegueira mundial, que traga, minimamente, um sentido para se reforçar a esperanca, alteridade e ética para o mundo contemporâneo. O caráter humanitário se direciona ao Outro numa postura humilde de se buscar a união por meio das diferenças. Essa é a orientação para o ano de 2010 que Voltaire já mencionava: Perdoemo-nos uns aos outros sobre os erros que cometemos, pois somos HUMANOS.

2 comentários:

  1. Caro Prof. Sérgio Aquino, Foucault dizia, no último texto ao qual dera seu "imprimatur", que a vida é o que não cessa de errar. Com toda a sinceridade, ando cansado de ouvir, principalmente de profissionais da área da pedagogia, que "diferença não faz comunidade". O duplo engano que está por trás dessa assertiva reside na destruição das experiências tanto do sentido de comunidade quanto de diferença (ontológica, cosmológica). Deixamos de pensar uma ética dos encontros intensivos, das relações de forças, da potência, para pensar uma ética por meio da qual, eu, o pequeno sujeito (juiz e víndice, coveiro do presente), reconheço no outro apenas um emaranhado de linhas de força que me são alheias, isto é, um rosto que me afronta. Sob tudo isso ainda sobrevive uma possibilidade ética sem sujeitos fixos, demasiadamente modernos, e que não não tem, por sua dissolução mesma, como abandonar o estar-junto. Mas, para isso, teríamos pensar uma possibilidade (amorosa, comunitária, diferençante) de viver o outro não mais como um sujeito cujo rosto reconhecemos, tampouco um campo subjetivo, mas, mais precisamente, o outro como o que contém muitos mundos em si - mundos que não dependem de nós, que não nos contemplam, que foram criados sem nós. Outro não mais como um simples ser, demasiado humano, mas outro como índice virtual de um outro mundo possível. Aí começa toda a ética dos encontros e um estética do vivre-ensemble: desértica (todo um campo livre a povoar), diferencial, pulsante. Feliz ano novo, caro amigo. E um abraço! Murilo

    ResponderExcluir
  2. Caro amigo Murilo

    Esse é o grande tema que ainda não soubemos trabalhar devidamente, o Outro enquanto Outro. Eu também já estou cansado de ouvir que a Democracia assegura a igualdade, ou seja, todos somos iguais. Ledo engano. Todos somos diferentes e é essa diferença que nos permite chegar mais próximo de um significado autenticamente humano. O estar-junto, como diria Maffesoli, é o que nos permite sair da órbita casauda pela elipse do ego e, juntos, criar uma estética da vida cotidiana, na qual as conexões entre a tecnologia do presente e futuro se mesclam com o arcaísmo do passado. Ninguém consegue se ver diante de uma "selva de pedras", mas num ambiente acolhedor em que natureza e os aparatos da vida (pós)moderna se encontram. Contudo, a cegueira ainda é grande. Essas pedagogas das quais falas não sabem o que é uma Comunidade. Se soubessem, não fariam afirmações desse porte. É necessário para nós do Direito, e eu ainda falava isso com um Professor amigo meu, trabalharmos mais o Imaginário Social e, junto a essas pessoas, decodificar suas falas para compreenderem o que está a sua volta. Enxergarem com outros olhos os significados da vida. Essa é a pulsão da vida social que precisa ser resgatada, caso contrário, não haverá nenhuma vida para se contemplar, falar e viver. Caro amigo, te desejo também um ótimo ano novo com muita paz, saúde e alegria.

    ResponderExcluir