sábado, 27 de junho de 2009

Direito e Ressentimento: lições de Max Scheler



Tolkien, talvez, foi o que melhor conseguiu demonstrar a idéia do ressentimento a partir de seu personagem Gollum. A descrição pela imagem ao lado caracteriza a introjeção psíquica vivida pela criatura literária tolkiniana em dois momentos: pela ambição ao anel, sempre comentada na frase: My precious, ou, também, pela esquizofrenia, remontando diálogos de ordem interna para se alcançar seu bem precioso em posse de outro.
Esse desejo irracional pelo anel provoca, aos poucos, a deterioção de Sméagol - antes considerado um Ser - para a criatura Gollum. Esse é o retrato causado pelo ressentimento de Scheler e que é manifesto no Direito contemporâneo.
Sobre o estudo do ressentimento em Max Scheler, assim me manifestei na obra Reflexões da Pós-modernidade: Estado, Direito e Constituição , no capítulo denominado Valor e Direito: as contribuições de Max Scheler e Miguel Reale, p. 269-270: A categoria em estudo, sob a filosofia de Scheler, denota unidade de vivência e resultado. Para o filósofo alemão, ressentimento é a repetição de um viver como uma reação de resposta emocional contra algo ou alguém[1]. Geralmente, são sentimentos de profunda mágoa ou ofensa[2]. Por meio dessas reações, vive-se o “sempre-de-novo-através” da emoção chamada ressentimento. É diferente de uma recordação intelectual, na qual vai perdendo o matiz com o transcorrer do tempo.
O vocábulo denota uma carga negativa, um movimento de hostilidade. Esse movimento faz com que a pessoa revivencie, de forma vívida, essa emoção
[3]. Por esta linha de pensamento, parece correto afirmar que ressentimento é um envenenamento pessoal da alma[4], uma introjeção psíquica contínua gerada por movimentos internos negativos que afetam o ser humano, como, por exemplo, a vingança.
A vingança, segundo Scheler, é um impulso negativo precedido de uma ofensa ou repreensão. Entretanto, ela não pode ser acompanhada de um querer revidar essa emoção, tampouco se defender dela
[5]. Os atos de vingança possuem duas características específicas: a) a manifestação de um distúrbio (ira, ódio, cólera ou fúria) e; b) retratação imediata, um sentimento de perdão[6]. O primeiro engendra um valor negativo. O segundo um valor moral[7] positivo[8]. Esse distúrbio das funções do corpo e da alma segue-se de uma reflexão entre efetivar ou não a reação contrária, ocasionando um sentimento de impotência, de não-poder[9].
A vingança, enquanto forma de vivência, significa um viver impotente. Com efeito, se a pessoa vive o sentimento de vingança continuamente (impotência), ela poderá gerar um movimento interno de definhamento ou, inclusive, da sua morte
[10]. Essa tensão entre a vingança e a consciência de concretizar ou não uma reação contrária imediata – impotência – materializa a forma do ressentimento.
A partir dessa linha de raciocínio, percebe-se que os juízos de valor estão intrinsecamente ligados a valores ressentidos. Tornam-se, portanto, farsas valorativas
[11]. O ressentimento parece ser a fonte dessa reviravolta dos valores, na qual o engano vem a ser o pilar dessa ordenação e conformação da vida. As tábuas de valores falsificadas são tidas como verdadeiras[12]. Essa inversão da ordem valorativa provocou mudanças severas para a organização social porque o movimento existente entre a aspiração e o não-poder[13] impede o homem de enxergar quais são os juízos de valores positivos.
O homem ressentido gera uma imagem falsificada do mundo
[14], pois esse desvio do olhar dos valores vitais, a tendência para se querer aniquilar as coisas e o próprio homem[15], bem como a entrega da alma para valores ilusórios[16] manifesta-se como a salvação e não como a compreensão de beleza ou de vida[17].
O Direito, enquanto manifestação derivada dos juízos de valores, implica na elaboração cultural ressentida, especialmente quando os valores de caráter originais ou fundamentais, tais como a vida, submetem-se aos de caráter instrumental, como, por exemplo, o capital. Essa inversão realiza nas pessoas uma introjeção psíquica contínua de impotência na realização de suas experiências existenciais. O viver de novo a partir do sempre-através-de impulsiona a perpetuação da violência, da imcompreensão ao Outro, do diálogo na construção de identificações culturais e coletivas, enfim, na tradução daquilo que consideramos autêntico e razoável para proteger as manifestações da vida. Mas, continua-se a viver... Como? Talvez Gollum seja a melhor resposta para caracterizar um Século que se inicia com o ressentimento de seu antecessor.
[1] SCHELER, Max. A reviravolta dos valores. p. 45.
[2] SILVA, Moacyr Motta da. Direito, justiça, virtude moral & razão: reflexões. p. 152.
[3] SCHELER, Max. A reviravolta dos valores. p. 45. O autor ratifica essa posição por meio da palavra alemã Grollen. Esse vocábulo é traduzido como o escuro da alma. É a zanga, a intenção de ódio que acaba de se formar por uma atividade de repetição destes sentimentos hostis.
[4] SCHELER, Max. A reviravolta dos valores. p. 48.
[5] SCHELER, Max. A reviravolta dos valores. p. 48.
[6] SILVA, Moacyr Motta da. Direito, justiça, virtude moral & razão: reflexões. p. 152.
[7] Esse tema será melhor abordado no tópico Ressentimento e Valor moral.
[8] SILVA, Moacyr Motta da. Direito, justiça, virtude moral & razão: reflexões. p. 152.
[9] SCHELER, Max. A reviravolta dos valores. p. 48.
[10] SCHELER, Max. A reviravolta dos valores. p. 52.
[11] SCHELER, Max. A reviravolta dos valores. p. 80.
[12] SCHELER, Max. A reviravolta dos valores. p. 80.
[13] SCHELER, Max. A reviravolta dos valores. p. 81.
[14] SCHELER, Max. A reviravolta dos valores. p. 83.
[15] SCHELER, Max. A reviravolta dos valores. p. 84.
[16] SCHELER, Max. A reviravolta dos valores. p. 82.
[17] SCHELER, Max. A reviravolta dos valores. p. 84-85.

Nenhum comentário:

Postar um comentário