sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Pelas trilhas de qual cidadania?


A idéia da cidadania representa um dever imposto pela Constituição brasileira ou significa a compreensão da outra pessoa? Esse questionamento inicial permite vislumbrar o que se deseja e como se age nos grupos a partir de um status que, em tese, afirma uma igualdade (quase) totalitária.

A prática cidadã, segundo a perspectiva constitucional, não pode ser reduzida à mera escolha dos representantes nos quais exercerão um cargo no Poder Executivo ou Legislativo. Ser cidadão implica na reflexão de que as nossas ações interferem e contribuem para a construção de uma identificação cultural local.

Impossível conceber um status – de ser cidadão - em que se aponta um mero dever-ser. A cidadania representa a chance do improvável tornar-se real, desde que animado pela esperança e pelo acolhimento. Ser cidadão não significa tolerar, criar um ambiente de convivência indiferente. Entretanto, a obrigação implícita nessa idéia – tolerar - não consegue estabelecer o porquê de se conviver. Carece de um fundamento que explique um projeto de integração, pois como lembra o Professor Eduardo Bittar: [...] o mesmo Estado que é capaz de criar regras e mantê-las a serviço da comunidade, é capaz da escravidão, alienação e desvio do poder. Quando se acolhe o outro como um igual, percebe-se a espontaneidade do ato. Esse pequeno gesto modifica um cenário no qual se tenta desprezar o próximo.

O núcleo dessa transformação de consciência reside na esquecida ética. A dimensão política dos atos cotidianos não pode ser traduzido tão-somente pelo ambiente partidário. Esse precisa ter a sensibilidade necessária para visualizar os desejos e anseios das pessoas aos lhes oferecer espaço para expressar seu pensamento. Contudo, torna-se difícil criar uma cultura de proximidade quando o interesse privado sobrepuja-se ao público. Bittar rememora que: [...] A existência tem sido marcada por um profundo processo de dilaceração da consciência da importância/necessidade do outro (alter) para a construção do eu.


A cultura da ética quando não possui um eixo fundamental mínimo no qual possa indicar as ações que promovam a consciência de acolhimento, é substituída pelos valores do mercado, pelo apego aos bens materiais. A ética pressupõe, portanto, um fundamento de coesão na medida em que possibilita o bem-estar comum. É nessa pequena medida que o cotidiano se transforma. Ser cidadão é um compromisso ininterrupto no qual não pode ser confundido tão-somente com as obrigações impostas pela lei.

Um comentário:

  1. A princípio a história da cidadania está entrelaçada com a história dos duelos pelos direitos humanos. A cidadania esteve e está em constante construção; é um referencial de conquista da humanidade, através daqueles que sempre afrontam por mais direitos, maior liberdade, melhores garantias individuais e coletivas, e não se acomodam frente às dominações, seja do próprio Estado ou de outras instituições ou pessoas que não abdicam de privilégios, de opressão e de injustiças contra uma maioria desassistida e que não se consegue fazer ouvir, exatamente por que se lhe nega a cidadania plena cuja conquista, ainda que tardia, não será tolhida. Ser cidadão é ter consciência de que é sujeito de direitos, mas este é um dos lados da moeda. Cidadania pressupõe também deveres. O cidadão tem de ser cônscio das suas responsabilidades enquanto parte integrante de um grande e complexo organismo que é coletividade, a nação, o Estado, para cujo bom funcionamento todos têm de dar sua parcela de contribuição. Somente assim se chega ao objetivo final, coletivo: a justiça em seu sentido mais amplo, ou seja, o bem comum Cidadania além de ser dever e obrigação, está voltada intimamente ao bem da coletividade e não somente às suas vontades individuais.

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