terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Educação e Experiência: a caminhada além do Ser



Quando Tolkien escreveu o primeiro livro da trilogia O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, o autor anota um pensamento de Bilbo Baggins para Frodo, no qual: É perigoso sair porta afora, Frodo. Você pisa na Estrada, e, se não controlar seus pés, não há como saber até onde você pode ser levado.
Essa, talvez, seja uma das mais belas metáforas que traduzem a caminhada do Ser humano que busca o aprendizado. Trilhar um caminho que (nem sempre) se sabe a direção, mas com contornos (in)definíveis ao longo da vida, se traduz numa aventura quando se (re)descobre a dimensão do mundo e do Ser. Caminhos que não estão prontos e, tampouco, desejam trazer a sensação de comodidade. Inquietamentes, sim, nos provocam e, até, atormentam para nos guiar rumo ao desconhecido. Somos uma eterna criança quando impuslionados por uma curiosidade sadia para desbravar o horizonte longíquo, embora a atitude pessimista prevaleça na maioria dos casos.
Confesso que, em minhas reflexões, o ato de educar não reside no domínio da quantificação estratificada do conhecimento, mas na sua construção dialogada. O Professor Warat lembrava que, muitas vezes, é necessário ouvir a sabedoria nas lições dos diversos autores nos quais compõem o mosaico dos campos do conhecimento. Fundamental que se busque a bagagem teórica pela leitura dos clássicos literários, filosóficos, sociológicos, antropológicos..., mas falta, também, perguntar: O que você conseguiu depurar das meras palavras, muitas vezes imposta? Repito, criar um espaço no qual o caminho da reflexão e auto-critícia se descortine aos poucos é tarefa árdua, pois implica no movimento de (des)construção dos pensamentos. Esse é o perigo que alertava Bilbo a Frodo, exposto no caso do ato de educar.
Quão ingênuos podemos ser acreditando que a imposição dos argumentos confere validade à aprendizagem. É necessário unir a depuração das leituras com os diálogos que se fazem no mundo. Aliás, é dessas interações nas quais surge a compreensão. Nesse ponto, especificamente, as lições de meu pai são valiosas: A Educação não se encerra entre as quatro paredes da sala de aula. É um eterno ir e vir, uma via de mão dupla (Bittar), no qual a teoria modifica a ação e vice-versa.
Quão rico são os diálogos que partem desse pressuposto, tentando-se não condensar, mas compreender os entrelaçamentos entre o ego e o alter a fim de se tecer a mais bela colcha de retalhos. Entretanto, ratifico duas posturas necessárias para compor esse cenário: a) uma sensibilidade, como diria Maffesoli, como se se pudesse escutar a grama crescer e; b) humildade. Essa última tem especial significado em Cortella, no qual é o terreno fértil (húmus) em que se (re)criam os sentimentos, idéias, diálogos. Sem a sensbilidade e humildade, muito dificil perceber no outro a dimensão da completude e compreensão, inclusive de si.
Se realmente desejarmos compreender qual a nossa morada habitual (Aristóteles), o diálogo se faz necessário. Aprender a Ser mais humano na medida que se transforma conhecimento em sabedoria. Essa utopia, confesso, se justifica nas palavras e atitudes daqueles que são sensíveis e humildes à contemplação do mundo. Registro essa boa façanha nas pessoas do Professor Márcio Harger, Juliano Keller do Valle, Júlio César Marcellino Júnior, Eduardo Bittar, Paulo Roney Ávila Fagúndez, Moacyr Motta, Maria da Graça dos Santos Dias, Osvaldo Ferreira de Melo, Marcos Leite Garcia, Flaviano Tauscheck, Brian Schmitz, Alexandre Morais da Rosa, Cláudia Roesler, Fabiana Ávila, bem como com os meus alunos(a).
Tolkien, a partir do diálogo entre Bilbo e Frodo Baggins, trouxe um novo horizonte no intuito de provocar a saída das cavernas interiores (Platão). Sair de nossa morada habitual para redescobrí-la é uma caminhada perigosa para a qual não se sabe o caminho. Contudo, nesse trilhar, dúvidas são resolvidas e outras aparecem. A leitura e diálogo permitem a interação entre educação e experiência. Somos chamados para realizar uma tarefa impossível para que, como diria Hume, essa rica CON-vivência não desapareça no tempo como as memórias nas quais, aos poucos, perdem as corer, os sons, os cheiros, a intensidade do momento. Caminhemos, então, rumo ao desconhecido. Deixemos que nossos pés nos levem às fronteiras da imaginação, do cuidado, da fraternidade a fim de se conhecer o valor da Educação e Experiência, muitas vezes encerradas e perdidas na dimensão exclusiva do ego e das quatro paredes de uma sala de aula.

Um comentário:

  1. Parabéns pela postagem! Grato pelos comentários consistentes e ricos no meu blog. Abs.

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