domingo, 22 de fevereiro de 2009

Direito e Cinema: a esperança e o espaço do (re)encontro








Tenho insistido em minhas aulas, e em algumas conversas com amigos como o Professor Márcio Harger, sobre a importância da reflexão do Direito a partir daquilo que o Cinema (Warat) tem a nos oferecer para se observar outras manifestações desse ramo do conhecimento.




Autores como Júlio Cabrera, em sua obra O Cinema Pensa, traz valiosas lições de como os pensamentos filosóficos estão intrinsecamente ligados às produções da sétima arte. Impossível dissociar o Direito dessa manifestação cultural (Tedesco), pois, por meio das interpretações, (re)conta-se os nossos desejos e aspirações de como podemos Ser mais humanos e, evidente, ter-se-ia paz e ordem.


Chaplin trouxe algumas dessas migalhas filosóficas (Kierkegaard) que permitem olhar um outro horizonte no eterno lapidar do Direito como epistemologia, axiologia, sociologia, entre outros campos do saber. O Direito Positivo, ao tentar tudo prever, impõe o dever-ser sem observar o que significa a pessoa ou seus modos de agir e pensar.


Revela-se como o tirano no qual crê ser absurdo compreender a criação e execução da ordem por meio da Razão Afetiva (Warat, Bittar, Fromm). No filme O Grande Ditador , Chaplin, a partir desse cenário mecânico que se desenhou no início do século XX, demonstra que o progresso somente nos servirá quando esse demonstrar avanço nas relações humanas. A imposição estatal, no intuito de proteger, ao aspirar algo valioso, restringe o re-encontro com o outro (alter) e enaltece a consciência nacional a partir dos ressentimentos (Scheler).


Iniciam-se as guerras, as mortes e o espaço do mítico, do amor, da fraternidade transforma-se na eterna vigilância sobre algo que pode vir a ocorrer. Esse futuro (im)provável assemelha-se às lições de Kant no livro À Paz Perpétua, no qual o ser humano não pode ser objeto de uso da vontade do Estado. As mesmas lições oportunas pode ser encontradas quando Professor Juliano Keller do Valle rememora o filme Tubarão. Não se tem teme a figura do animal mencionado, mas é a angústia de onde a ameaça pode vir a ocorrer que nos mantém sempre alertas. Acredito ser impossível almejar qualquer desenvolvimento humanos ou cultural a partir desses cenários amorfos e cristalizados.


Aliás, lembremos o que Chaplin nos ensina nesse resgate da condição humana: Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

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